Você sabe que precisa fazer alguma coisa.
Sabe que é importante. Sabe que deixar para depois provavelmente vai tornar tudo mais difícil. Talvez até tenha consciência de que, se começasse agora, terminaria rapidamente.
Mesmo assim, você não começa.
De repente, qualquer outra coisa parece mais interessante.
O celular.
Um vídeo.
Arrumar alguma coisa que nem precisava ser arrumada.
Olhar pela janela.
Ou, em um nível particularmente absurdo, observar uma mosca atravessando a sala parece uma atividade mais atraente do que simplesmente fazer aquilo que você sabe que precisa fazer.
Se você já passou por isso, talvez tenha se perguntado:
“Se eu sei que isso é importante, por que continuo adiando?”
Minha experiência
Cara, eu tinha uma procrastinação tão intensa em relação às tarefas que conseguia me entreter mais com uma mosca do que com elas.
E não acontecia apenas com tarefas.
Obrigações como um todo acabavam entrando na mesma categoria.
Eu sempre deixava as coisas para o último segundo.
Era como se qualquer coisa fosse mais interessante do que aquilo que eu precisava fazer.
O problema não era necessariamente não saber que aquilo era importante. Eu sabia.
Eu também sabia que, se continuasse adiando, provavelmente teria que lidar com aquilo depois, talvez com mais pressa e mais pressão.
Mesmo assim, na hora de começar, outras coisas pareciam muito mais atraentes.
Era quase como se minha mente dissesse:
“Isso pode esperar. Qualquer outra coisa parece melhor agora.”
E assim eu adiava.
Até chegar aquele último momento em que já não existia mais espaço para continuar fugindo da tarefa.
O que a ciência sabe

A procrastinação costuma ser definida na literatura como o adiamento voluntário de uma ação pretendida, apesar de se esperar que esse adiamento possa trazer consequências negativas.
Isso é importante porque procrastinar não significa simplesmente esquecer uma tarefa ou não ter tempo para realizá-la.
A pessoa pode querer fazer, saber que deveria fazer e, ainda assim, escolher ou acabar realizando outra coisa naquele momento.
Uma das explicações mais influentes para esse fenômeno envolve a maneira como avaliamos diferentes recompensas ao longo do tempo.
Uma tarefa importante pode trazer benefícios no futuro: terminar um trabalho, estudar para uma prova, organizar alguma coisa ou cumprir uma obrigação.
Mas o esforço necessário para começar acontece agora.
Enquanto isso, outras atividades podem oferecer algum tipo de recompensa imediatamente.
Assistir a um vídeo, conversar, jogar, navegar na internet ou simplesmente fazer alguma atividade mais agradável pode proporcionar uma sensação positiva sem exigir o mesmo esforço.
Assim, o conflito não é necessariamente:
“Importante versus não importante.”
Pode ser:
“Algo que considero importante, mas desagradável agora, versus algo menos importante, porém mais agradável agora.”
A pesquisa sobre procrastinação tem encontrado justamente uma relação importante entre a tendência a adiar e a forma como as pessoas valorizam recompensas imediatas em comparação com recompensas futuras. Uma revisão teórica influente descreve a procrastinação como um problema de autorregulação no qual fatores como valor da tarefa, expectativa de sucesso, impulsividade e distância temporal podem influenciar a decisão de agir ou adiar. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Isso ajuda a explicar por que saber que algo é importante não resolve necessariamente o problema.
Conhecimento e comportamento não são a mesma coisa.
Você pode saber perfeitamente o que deveria fazer e ainda sentir uma preferência momentânea por fazer outra coisa.
O presente pode pesar mais do que o futuro
Existe um conceito bastante estudado na economia comportamental e na psicologia chamado desconto temporal.
De maneira simplificada, tendemos a atribuir menos valor a recompensas quanto mais distantes elas estão no tempo.
Imagine duas possibilidades:
Receber uma pequena recompensa agora.
ou
Receber uma recompensa maior depois.
Em determinadas situações, a recompensa imediata pode parecer desproporcionalmente atraente.
Esse princípio ajuda a compreender por que algumas tarefas são tão fáceis de adiar.
O benefício de terminar uma obrigação pode estar horas, dias ou semanas no futuro.
O desconforto de começar, entretanto, está acontecendo agora.
E uma atividade alternativa pode oferecer alívio ou prazer imediatamente.
A revisão de Steel (2007), que reuniu diferentes linhas de pesquisa sobre procrastinação, encontrou associações entre procrastinação e fatores como aversão à tarefa, impulsividade, baixa autodisciplina e dificuldade de autorregulação. O autor também destacou que a procrastinação não pode ser reduzida a uma única causa. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Isso é importante porque existe uma explicação muito popular para procrastinação:
“A pessoa procrastina porque é preguiçosa.”
A evidência é mais interessante do que isso.
Às vezes, adiar faz a tarefa parecer melhor depois

Uma das hipóteses estudadas é que a procrastinação também pode funcionar como uma forma de regulação emocional de curto prazo.
A tarefa pode gerar tédio, frustração, insegurança, esforço mental ou simplesmente uma sensação desagradável.
Ao adiá-la, a pessoa consegue se afastar temporariamente dessa experiência.
O problema é que o alívio é imediato, enquanto o custo aparece depois.
É como empurrar uma conta para o futuro.
Naquele momento, você se sente melhor porque não precisa lidar com a tarefa.
Mas a tarefa continua existindo.
E agora pode estar acompanhada de uma pressão adicional: o tempo diminuiu.
Pesquisas experimentais e teóricas têm investigado justamente a relação entre procrastinação e regulação emocional, sugerindo que algumas pessoas podem utilizar o adiamento como uma maneira de escapar temporariamente de estados emocionais desagradáveis associados à tarefa. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Isso cria um ciclo interessante:
tarefa → desconforto → adiamento → alívio imediato → tarefa continua existindo → pressão aumenta → novo desconforto.
E quanto mais esse ciclo se repete, mais fácil pode parecer escolher o alívio imediato novamente.
Mas por que até uma mosca parecia interessante?
Aqui existe uma parte engraçada — e cientificamente interessante — da experiência.
Você não precisa encontrar uma atividade realmente fascinante para procrastinar.
A alternativa só precisa parecer mais atraente naquele momento do que a tarefa que você está evitando.
Se uma obrigação é percebida como extremamente desagradável, até uma distração pequena pode ganhar valor relativo.
Isso ajuda a explicar por que a procrastinação pode assumir formas tão absurdas.
Não é necessariamente que a mosca tenha se tornado fascinante.
É que, naquele momento, qualquer coisa que não fosse a tarefa podia funcionar como uma fuga dela.
O mesmo pode acontecer quando alguém abre o celular “só por cinco minutos” antes de começar algo.
Quando esse tipo de comportamento se repete em determinados contextos e passa a ser associado a recompensas, ele pode deixar de ser apenas uma distração ocasional e adquirir uma história própria de repetição. É aí que surge outra pergunta: [por que continuamos fazendo algo que sabemos que nos faz mal?]
Os cinco minutos não precisam ser extraordinariamente divertidos.
Eles só precisam ser mais fáceis e imediatamente recompensadores do que começar a tarefa.
E existe uma diferença importante entre valor absoluto e valor relativo.
Talvez você normalmente não ache interessante ficar olhando para uma parede.
Mas se a alternativa for realizar uma tarefa extremamente desagradável, a parede pode subitamente parecer uma ótima opção.
O que ainda não sabemos
Embora existam vários modelos para explicar a procrastinação, não existe uma causa única.
Pessoas diferentes podem adiar pelas mais variadas razões.
Uma pessoa pode estar evitando tédio.
Outra pode estar evitando ansiedade.
Outra pode ter dificuldade de iniciar uma tarefa complexa.
Outra pode subestimar quanto tempo precisará.
Outra pode simplesmente estar diante de uma atividade cujo benefício está distante demais para competir com recompensas presentes.
E diferentes motivos podem aparecer na mesma pessoa em momentos diferentes.
Também é importante não transformar procrastinação em um fenômeno puramente emocional.
Planejamento, percepção do tempo, controle da atenção, motivação, características da tarefa e ambiente também podem participar.
Uma revisão recente sobre procrastinação reforça essa natureza multifatorial, discutindo a interação entre fatores cognitivos, emocionais, motivacionais e contextuais. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Por isso, não seria cientificamente correto olhar para uma experiência individual e afirmar:
“Eu procrastinava por causa de X.”
Podemos identificar mecanismos plausíveis e compatíveis com a experiência, mas estabelecer a causa exata exigiria uma investigação muito mais específica.
Novas perspectivas

Talvez uma das ideias mais importantes seja abandonar a interpretação de que procrastinar significa simplesmente não se importar.
Às vezes, podemos nos importar justamente porque a tarefa é importante.
E talvez seja essa importância que torne algumas tarefas emocionalmente pesadas.
Quando uma obrigação carrega expectativas, consequências ou a possibilidade de fracasso, começar pode significar entrar imediatamente em contato com tudo isso.
Então surge uma alternativa muito mais confortável:
“Depois eu faço.”
O curioso é que essa decisão pode funcionar muito bem no curto prazo.
Você não precisa lidar com a tarefa.
A sensação desagradável diminui.
Você pode fazer outra coisa.
O problema aparece no futuro.
E o futuro, naquele momento, parece distante o suficiente para não competir com o presente.
É por isso que a procrastinação pode parecer tão irracional quando olhamos para ela depois.
Depois que o prazo está chegando, pensamos:
“Por que eu não fiz isso antes?”
Mas a decisão original foi tomada em outro estado, diante de outras recompensas e outro horizonte temporal.
Talvez seja mais útil compreender a procrastinação como um conflito entre o que queremos alcançar e o que queremos sentir agora.
Isso não significa que toda procrastinação tenha essa origem.
Mas ajuda a entender por que saber que algo é importante pode não ser suficiente para fazer com que pareça atraente no momento.
Você pode valorizar profundamente o resultado futuro e, ainda assim, preferir evitar o desconforto presente.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores armadilhas da procrastinação:
o adiamento resolve o problema de agora sem resolver o problema de verdade.
Ele compra alguns minutos de alívio usando tempo do seu próprio futuro.
Conclusão
Saber que alguma coisa é importante não garante que vamos fazê-la imediatamente.
A procrastinação envolve uma combinação de fatores relacionados à autorregulação, valor das recompensas, características da tarefa, impulsividade, percepção do tempo e, em algumas situações, tentativa de evitar estados emocionais desagradáveis. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Isso ajuda a explicar aquela experiência aparentemente absurda em que uma obrigação importante perde para qualquer distração disponível.
Às vezes, nem é preciso encontrar algo realmente interessante.
Uma mosca já serve.
Não porque a mosca seja mais importante.
Mas porque, naquele momento, ela oferece algo que a obrigação não oferece: uma alternativa imediata ao desconforto de começar.
Talvez a pergunta mais interessante, então, não seja apenas:
“Por que continuo adiando se sei que isso é importante?”
Mas:
“O que estou tentando evitar sentir agora quando escolho adiar?”
A resposta pode ser diferente para cada pessoa e para cada situação.
E compreender essa diferença muda a maneira como enxergamos a procrastinação.
Ela deixa de parecer simplesmente uma falha de caráter e passa a ser um comportamento que pode ser investigado: quais recompensas estamos priorizando, quais emoções estamos evitando, como percebemos o futuro e o que torna uma tarefa tão difícil de começar?
A ciência não elimina a complexidade da mente humana. Ela nos ajuda a compreendê-la.
Referências utilizadas
- Steel, P. (2007). The nature of procrastination: A meta-analytic and theoretical review of quintessential self-regulatory failure. Psychological Bulletin, 133(1), 65–94. DOI: 10.1037/0033-2909.133.1.65. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
- Sirois, F. M., & Pychyl, T. A. (2013). Procrastination and the Priority of Short-Term Mood Regulation: Consequences for Future Self. European Psychologist, 18(2), 115–127. DOI: 10.1027/1016-9040/a000138. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
- Steel, P., & Klingsieck, K. B. (2016). Academic Procrastination: Psychological Antecedents Revisited. Australian Psychologist, 51(1), 36–46.
- Svartdal, F., et al. (2020). How to study procrastination in real life: A review of the current state of research. Frontiers in Psychology, 11, 260. DOI: 10.3389/fpsyg.2020.000?
- Klingsieck, K. B. (2013). Procrastination: When good things don’t come to those who wait. European Psychologist, 18(1), 24–34.
- Steel, P. (2010). Arousal, avoidant and decisional procrastinators: Do they exist? Personality and Individual Differences, 48(8), 926–934.