Por que a motivação pode diminuir quando uma atividade deixa de ser novidade?

Introdução

No começo, algumas atividades parecem ter algo especial.

Você descobre uma música nova, começa um jogo, aprende um instrumento, encontra uma série interessante ou desenvolve um novo passatempo. Há curiosidade, expectativa e vontade de voltar àquilo no dia seguinte. A atividade parece ter vida própria.

Com o tempo, porém, essa sensação pode mudar.

O que antes despertava interesse começa a parecer previsível. A mesma atividade, que costumava ocupar um espaço importante no dia, passa a exigir um esforço maior para ser iniciada. Às vezes, nem sequer existe uma razão clara para abandoná-la. Ela simplesmente parece menos significativa.

Isso pode gerar uma pergunta desconfortável: se eu realmente gostava disso, por que agora parece tão vazio?

Uma possibilidade é que parte da motivação estivesse relacionada justamente àquilo que a novidade proporcionava. Mas essa não é a única explicação. A maneira como uma atividade satisfaz nossas necessidades psicológicas, o quanto sentimos que estamos evoluindo e até a presença ou ausência de outras pessoas podem influenciar nossa relação com ela.

Assim, talvez a questão não seja simplesmente descobrir por que a novidade acaba, mas entender o que muda dentro da relação entre uma pessoa e uma atividade quando aquilo que antes era novo se torna familiar.

Minha experiência

Tenho deixado de querer fazer atividades que antes amava, pois elas parecem estar mais vazias, como se não fizessem sentido. Sinto que isso acontece pela monotonia da rotina, como se essas atividades fossem sumindo nesse mar de solidão e se fingindo de solitude.

atividade

O que a ciência sabe

A primeira coisa importante é que repetição e perda de prazer realmente podem estar relacionadas, mas isso não significa que o cérebro simplesmente “pare de liberar dopamina” ou que uma atividade deixe de ser prazerosa porque ficou velha.

Pesquisas sobre o chamado hedonic decline, ou declínio hedônico, mostram que a exposição repetida a um mesmo estímulo pode diminuir a resposta de prazer ou satisfação que ele inicialmente provoca. Uma revisão publicada no Annual Review of Psychology descreve esse fenômeno e aponta diferentes mecanismos possíveis, incluindo processos fisiológicos, mudanças na percepção e fatores relacionados à maneira como refletimos sobre a experiência.

Imagine alguém que descobre uma banda nova.

Nas primeiras vezes, as músicas podem chamar bastante atenção. Há elementos desconhecidos para perceber, expectativas sobre o que virá e a própria sensação de descoberta. Depois de muitas reproduções, a música continua sendo a mesma, mas a experiência subjetiva pode mudar.

Isso não significa necessariamente que a pessoa deixou de gostar da banda. O que mudou pode ser a intensidade da experiência.

A novidade possui uma relação importante com os sistemas envolvidos em exploração, aprendizagem e motivação. Pesquisas sobre comportamento de busca por novidade mostram que estímulos novos podem aumentar a exploração e receber um valor especial durante a tomada de decisões. Há também evidências envolvendo circuitos dopaminérgicos nesse processo — Uma questão que também aparece em [Por que minha energia desaparece justamente quando estou animado?].

Mas aqui existe uma diferença importante: dopamina não é simplesmente a “substância do prazer”.

A dopamina participa de processos relacionados à motivação, aprendizagem, antecipação de recompensas e direcionamento do comportamento. Reduzir toda essa dinâmica à ideia de “atividade nova = muita dopamina; atividade velha = pouca dopamina” seria uma simplificação excessiva. A literatura sobre motivação e recompensa mostra que o sistema dopaminérgico possui funções muito mais amplas.

Portanto, a novidade pode contribuir para tornar algo inicialmente mais atraente, mas ela não explica sozinha por que continuamos ou deixamos de fazer determinada atividade.

Quando a atividade deixa de oferecer descoberta

Uma parte da motivação pode estar relacionada àquilo que a atividade nos permite descobrir.

No início de algo novo, quase tudo pode representar progresso. Aprender os primeiros acordes no violão, descobrir uma estratégia em um jogo ou entender os primeiros conceitos de um assunto produz pequenas descobertas constantemente.

Depois, o cenário muda.

A pessoa já conhece os fundamentos, os resultados começam a ficar previsíveis e o intervalo entre esforço e recompensa pode parecer diferente.

Isso não significa que a atividade perdeu seu valor. Significa que o tipo de recompensa proporcionado por ela pode ter mudado.

A novidade oferecia descoberta. Agora, talvez seja necessário encontrar outra fonte de significado: aperfeiçoamento, desafio, expressão pessoal, autonomia ou conexão com outras pessoas.

É justamente nesse ponto que outra teoria bastante estudada sobre motivação pode ajudar a compreender o fenômeno.

A Teoria da Autodeterminação, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, propõe que a qualidade da motivação humana está relacionada, entre outros fatores, à satisfação de três necessidades psicológicas básicas: autonomia, competência e relacionamento.

Autonomia envolve sentir que aquilo que fazemos parte de uma escolha nossa.

Competência está relacionada à sensação de conseguir agir de maneira eficaz, aprender e desenvolver habilidades.

Relacionamento envolve sentir conexão e pertencimento.

Isso cria uma perspectiva interessante sobre a perda de motivação.

Talvez uma atividade não esteja simplesmente “sem graça” porque deixou de ser nova. Talvez a forma como ela se encaixa na vida da pessoa tenha mudado.

Uma atividade que antes proporcionava descoberta e conexão pode se transformar em uma tarefa repetitiva feita automaticamente. Uma atividade que antes representava liberdade pode começar a parecer uma obrigação. Outra pode continuar sendo agradável, mas deixar de produzir a sensação de crescimento.

Nesse sentido, a monotonia pode ser apenas uma parte da história.

E quando aparece a sensação de vazio?

É aqui que a experiência pessoal se torna particularmente interessante.

Existe uma diferença entre dizer:

“Não estou mais interessado nessa atividade.”

e dizer:

“As coisas que antes gostava parecem vazias.”

A segunda frase envolve algo mais amplo do que a simples perda de novidade.

A ciência não permite concluir, a partir de uma experiência individual, que a sensação de vazio seja causada pela monotonia ou pela ausência de novidade. Também não seria adequado transformar essa experiência automaticamente em sinal de algum transtorno.

Mas a sensação descrita levanta uma hipótese importante: talvez a atividade não esteja sendo avaliada isoladamente.

Ela pode estar sendo vivenciada dentro de um contexto maior.

Se uma pessoa passa a repetir as mesmas atividades, nos mesmos ambientes e com pouca variação, a própria atividade pode acabar ficando associada à rotina. Aquilo que antes representava uma experiência específica passa a fazer parte de um cenário previsível.

E existe ainda outro elemento possível: a relação com outras pessoas.

A Teoria da Autodeterminação considera o relacionamento uma das necessidades psicológicas relevantes para a motivação e o bem-estar. Quando essa dimensão está ausente ou pouco satisfeita, uma atividade que anteriormente era significativa pode ser experimentada de maneira diferente.

Isso não significa que toda perda de motivação seja consequência de solidão.

Mas ajuda a perceber que talvez não seja suficiente perguntar:

“Ainda gosto dessa atividade?”

Talvez também seja necessário perguntar:

“O que essa atividade significava para mim quando eu gostava dela?”

A resposta pode revelar que o prazer não estava apenas no que era feito, mas em como, quando, por que e com quem aquilo era vivido.

O que ainda não sabemos

Embora existam evidências de que a repetição pode reduzir respostas hedônicas e de que a novidade participa de processos motivacionais, não existe uma explicação única para o desaparecimento da motivação.

O declínio do prazer pode acontecer por diferentes mecanismos e variar conforme a pessoa, a atividade e o contexto. A própria literatura sobre declínio hedônico reúne explicações diferentes, incluindo mecanismos perceptivos, fisiológicos e cognitivos.

Também não podemos concluir que toda atividade precise de novidade constante para continuar motivadora.

Pelo contrário: algumas atividades se tornam mais interessantes justamente à medida que a pessoa desenvolve competência. O prazer de tocar um instrumento, por exemplo, pode deixar de estar principalmente na descoberta inicial e passar a estar na capacidade de executar algo que antes parecia impossível.

Além disso, a relação entre novidade, dopamina e motivação é complexa. Embora existam evidências de participação dopaminérgica na busca por novidade e no comportamento motivado, isso não permite utilizar a dopamina como explicação simples para qualquer sensação subjetiva de tédio, vazio ou desinteresse.

Por isso, ainda existe uma distância importante entre explicar mecanismos gerais de motivação em laboratório e explicar exatamente por que uma determinada pessoa deixa de encontrar sentido em uma atividade que antes amava.

Novas perspectivas

Talvez perder o entusiasmo por algo que antes fazia parte da vida não signifique necessariamente que aquilo deixou de ter valor.

Às vezes, significa que a relação com aquilo mudou.

Uma atividade pode começar como descoberta, transformar-se em hábito e, depois, precisar encontrar outro significado para continuar fazendo sentido.

Isso também muda a maneira de interpretar a monotonia.

Em vez de enxergá-la apenas como uma inimiga da motivação, podemos entendê-la como um sinal de que a experiência já não está oferecendo as mesmas coisas que oferecia antes.

Talvez exista menos descoberta.

Talvez exista menos desafio.

Talvez a pessoa já não perceba progresso.

Talvez a atividade tenha se tornado uma obrigação.

Ou talvez aquilo que fazia a experiência ser especial estivesse fora da atividade em si.

Essa última possibilidade é particularmente importante.

Uma pessoa pode acreditar que sente falta de um determinado jogo, série, lugar ou passatempo, quando, na realidade, sente falta da época da vida em que aquilo estava associado a amizades, descobertas, expectativas ou uma sensação diferente de futuro.

Nesse caso, tentar recuperar exatamente a mesma experiência pode ser frustrante.

A alternativa pode ser compreender qual necessidade aquela atividade atendia e perceber se ela ainda pode ser satisfeita de outra maneira.

Isso também ajuda a explicar por que simplesmente procurar uma novidade atrás da outra pode não resolver o problema. Se o que está faltando não é apenas estímulo, mas autonomia, competência, conexão ou significado, trocar constantemente de atividade pode apenas produzir novos começos sem resolver aquilo que tornou os antigos menos interessantes.

A novidade pode abrir a porta.

Mas ela não necessariamente explica por que queremos permanecer dentro da sala.

Conclusão

A motivação pode diminuir quando uma atividade deixa de ser nova porque a repetição tende, em determinadas circunstâncias, a reduzir a intensidade da resposta de prazer. Ao mesmo tempo, a novidade está relacionada a mecanismos de exploração, aprendizagem e motivação, o que ajuda a explicar por que os primeiros contatos com algo podem ser tão envolventes.

Mas isso é apenas parte da história.

Uma atividade não precisa continuar sendo nova para continuar tendo significado. A motivação também pode depender da sensação de autonomia, competência e conexão com outras pessoas.

Por isso, quando aquilo que antes gostávamos começa a parecer vazio, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas “por que perdi a vontade?”

Pode ser:

“O que mudou na experiência que fazia isso ser importante para mim?”

Talvez a resposta esteja na novidade. Talvez esteja na rotina. Talvez no desafio que desapareceu. Talvez nas pessoas que estavam presentes. Ou talvez em alguma mudança na própria maneira como enxergamos a atividade.

A ciência não consegue determinar, a partir de uma única experiência, qual dessas explicações é a correta.

Mas ela oferece uma perspectiva diferente: perder o entusiasmo por algo não significa necessariamente que deixamos de ser capazes de gostar daquilo. Às vezes, o que desapareceu não foi o valor da atividade, mas a forma como ela costumava fazer sentido para nós.

Referências científicas

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