Introdução
Você consegue dormir rapidamente, mas acorda várias vezes durante a noite e levanta cansado.
Em alguns momentos, nem parece que houve um problema para adormecer. O sono veio, você fechou os olhos e, aparentemente, tudo estava funcionando como deveria. Mas, algumas horas depois, você percebe que está acordado novamente.
Às vezes, volta a dormir quase imediatamente. Em outras, permanece desperto por alguns minutos antes de conseguir pegar no sono outra vez.
Isso pode gerar uma sensação estranha: se eu consigo dormir, por que meu sono parece não funcionar direito?
Talvez a questão não esteja apenas na capacidade de adormecer. Talvez esteja naquilo que acontece depois que o sono começa.
Minha experiência
Durante muito tempo, o que mais chamava minha atenção era justamente isso: eu conseguia dormir, mas meu sono parecia ser interrompido várias vezes durante a noite.
Eu acordava em diferentes momentos e, algumas vezes, conseguia voltar a dormir rapidamente. Em outras, percebia claramente que estava acordado antes de conseguir dormir novamente.
O mais curioso era que, em determinadas noites, eu tinha a impressão de ter sonhado muitas vezes. Cheguei a me lembrar de mais de dez sonhos diferentes em uma única noite.
Apesar de dormir por várias horas, eu ainda podia levantar com a sensação de que o descanso não tinha sido suficiente.
Isso me fez pensar que talvez o problema não estivesse necessariamente em conseguir dormir, mas em conseguir permanecer dormindo de maneira contínua.
O que a ciência sabe

A primeira coisa importante é que o sono não é um estado completamente contínuo e uniforme.
Durante uma noite normal, existem mudanças entre diferentes estágios do sono e também podem ocorrer breves despertares ou aumentos da atividade cerebral chamados de arousals. Muitos deles são tão curtos que a pessoa nem chega a percebê-los.
Por isso, acordar brevemente durante a noite não significa necessariamente que exista um problema.
A questão muda quando essas interrupções se tornam frequentes ou prolongadas. Nesse caso, fala-se em fragmentação do sono: episódios repetidos de despertar ou de ativação que interrompem a continuidade do sono. A pesquisa também diferencia o número de despertares do tempo total que uma pessoa permanece acordada depois de adormecer, medidas usadas para avaliar a continuidade do sono.
Mas o que pode interromper o sono?
Existem diferentes possibilidades. Alterações ambientais, desconforto físico, necessidade de urinar, mudanças na temperatura, ruídos e outros estímulos podem produzir despertares. Condições que afetam o sono, como apneia obstrutiva do sono e síndrome das pernas inquietas, também podem provocar interrupções repetidas. Além disso, fatores emocionais e psicológicos podem estar associados a alterações na continuidade do sono.
E existe um detalhe particularmente interessante: nem toda interrupção do sono chega à nossa consciência.
Um arousal pode representar uma alteração mensurável na atividade cerebral sem necessariamente produzir um despertar completo. Assim, uma pessoa pode ter um sono fragmentado sem acordar conscientemente todas as vezes.
Isso ajuda a explicar por que a percepção de “acordo muitas vezes” não é uma medida perfeita de tudo o que aconteceu durante a noite.
Isso também pode ajudar a explicar uma experiência curiosa: algumas pessoas percebem ou se lembram de muitos sonhos durante a noite. Mas acordar várias vezes significa necessariamente sonhar mais — ou pode aumentar as oportunidades de lembrar aquilo que estava acontecendo durante o sono?
Leia também: [Por que consigo me lembrar de tantos sonhos durante a noite?]
A continuidade do sono também pode ter relação com o funcionamento durante o dia. Estudos experimentais mostram que a fragmentação pode aumentar a sonolência e prejudicar aspectos como atenção sustentada e flexibilidade mental. Revisões também associam pior qualidade e fragmentação do sono a alterações no funcionamento cognitivo.
Isso não significa que todo despertar produzirá necessariamente cansaço no dia seguinte. O efeito depende da intensidade, frequência e contexto das interrupções, além das diferenças individuais.
O que ainda não sabemos

Existe uma dificuldade importante quando tentamos entender o próprio sono apenas pela percepção.
Dizer “eu acordo muitas vezes” descreve uma experiência real, mas não revela automaticamente o que está acontecendo durante toda a noite.
Podemos perceber alguns despertares e não perceber outros. Também podemos não saber quanto tempo realmente permanecemos acordados, quais estágios do sono foram afetados ou se houve alterações fisiológicas que não chegaram à nossa consciência.
Por isso, não é possível descobrir a causa de uma noite fragmentada apenas contando quantas vezes lembramos de ter acordado.
A investigação da causa depende do contexto e, quando necessário, de uma avaliação adequada do sono. Diferentes mecanismos podem produzir experiências parecidas.
Novas perspectivas
Talvez uma mudança importante seja trocar a pergunta.
Em vez de perguntar apenas:
“Por que não consigo dormir?”
podemos perguntar:
“O que está interrompendo a continuidade do meu sono?”
Essa mudança parece pequena, mas modifica o problema.
Adormecer e permanecer dormindo são processos diferentes. Uma pessoa pode não apresentar grande dificuldade para iniciar o sono e, ainda assim, ter interrupções durante a noite.
Da mesma forma, perceber vários despertares não significa automaticamente que exista uma única causa evidente por trás deles.
O sono é um processo dinâmico. Às vezes, aquilo que sentimos como “uma noite inteira acordando” pode ser apenas a parte consciente de uma série muito maior de transições entre sono e vigília.
E é justamente por isso que observar a experiência pode ser o começo da investigação, mas não necessariamente sua resposta.
Conclusão

Talvez a contradição mais interessante esteja justamente aqui:
“Eu consigo dormir, mas meu sono não parece permanecer contínuo.”
Essa experiência é diferente de simplesmente não conseguir adormecer.
O sono normal já envolve mudanças e breves interrupções que muitas vezes passam despercebidas. O problema é que, quando essas interrupções se tornam frequentes ou mais prolongadas, elas podem comprometer a continuidade do sono e estar associadas a consequências durante o dia.
Por isso, quando alguém percebe que está acordando repetidamente, talvez a pergunta mais útil não seja apenas “por que eu acordo?”, mas também “o que está acontecendo com a continuidade do meu sono?”
Essa diferença pode parecer sutil.
Mas ela muda completamente a maneira de olhar para uma noite que, apesar de ter começado com facilidade, nunca pareceu realmente permanecer inteira.
Referências utilizadas
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- Bonnet, M. H. The effect of sleep fragmentation on daytime function. Sleep, 1995.
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1 comentário em “Por que acordo tanto durante a noite?”