Porque consigo me lembrar de tantos sonhos durante a noite?

Você fecha os olhos, dorme e, aparentemente, a noite deveria passar sem que você percebesse. Mas não é isso que acontece. Em vez de acordar apenas pela manhã, você desperta várias vezes durante a noite. E, cada vez que volta a dormir, parece entrar novamente em algum sonho.

Quando amanhece, a sensação pode ser estranha: você não se lembra de apenas um sonho, mas de vários. Alguns permanecem claramente na memória; outros aparecem como fragmentos, imagens ou pequenas histórias que parecem ter acontecido durante a noite.

Isso levanta uma pergunta interessante: por que algumas pessoas conseguem se lembrar de tantos sonhos enquanto outras quase nunca se lembram de nenhum?

A resposta parece estar menos relacionada à quantidade de sonhos que uma pessoa necessariamente tem e mais à facilidade com que essas experiências conseguem permanecer acessíveis à memória depois que acordamos.

Minha experiência

Mesmo em dias normais, sem um estresse específico ou pensamentos preocupantes antes de dormir, eu podia deitar, fechar os olhos e dormir. O problema aparecia durante a noite: eu acordava várias vezes.

Ao voltar a dormir, muitas vezes parecia que praticamente já estava sonhando novamente. Pela manhã, conseguia me lembrar de muitos sonhos — às vezes, mais de dez.

Não eram necessariamente sonhos completos. Alguns permaneciam como histórias relativamente claras; outros eram apenas fragmentos que continuavam vagando pelo pensamento.

O mais estranho era que essa quantidade de sonhos lembrados vinha acompanhada de uma sensação de cansaço. Eu acordava sem muita energia e com a impressão de que a noite havia sido muito mais movimentada do que deveria.

Mas será que isso significa que eu realmente estava sonhando muito mais do que outras pessoas?

O que a ciência sabe

sonhos

Antes de tudo, existe uma diferença importante entre sonhar e lembrar de um sonho.

Não lembrar de um sonho não significa necessariamente que ele não aconteceu.

Pesquisas que acordam voluntariamente pessoas durante diferentes estágios do sono mostram que experiências semelhantes a sonhos podem ser relatadas tanto durante o sono REM quanto durante o sono não REM. O sono REM apresenta uma frequência particularmente alta de relatos de sonhos, mas ele não é o único período em que experiências oníricas acontecem. Uma revisão de 2025 que analisou 69 estudos de despertares encontrou, em média, relatos de experiências com lembrança em cerca de 83% dos despertares a partir do REM e em aproximadamente 60% dos despertares durante o sono NREM.

Isso muda a pergunta.

Talvez a questão não seja simplesmente “quantos sonhos eu tive?”, mas “quantas oportunidades meu cérebro teve de registrar e recuperar aquilo que sonhei?”

Acordar pode fazer diferença

Um dos fatores mais interessantes para entender a lembrança de sonhos é justamente o despertar.

Quando uma pessoa acorda espontaneamente ou é acordada durante a noite, a experiência mental que estava acontecendo imediatamente antes do despertar pode permanecer temporariamente mais acessível. Quanto mais tempo passa depois de acordar, maior pode ser a interferência de novas informações e atividades sobre essa lembrança.

Uma revisão metodológica sobre o assunto destaca que o intervalo entre o despertar e o relato do sonho deve ser minimizado justamente porque a memória da experiência pode se perder ou ser reconstruída nesse período.

Isso ajuda a entender uma situação aparentemente paradoxal: acordar várias vezes pode fazer uma pessoa lembrar de mais sonhos, mesmo que isso não signifique necessariamente que ela esteja sonhando mais.

Cada despertar pode funcionar como uma espécie de “ponto de salvamento” da experiência que acabou de acontecer.

Uma pesquisa com 444 participantes encontrou uma associação entre a frequência de despertares noturnos e a frequência de lembrança de sonhos. Entretanto, os fatores analisados juntos explicaram apenas uma pequena parte da variação individual, mostrando que os despertares são apenas uma peça de um problema muito mais complexo.

O horário do sonho também importa

O sono não permanece igual durante toda a noite.

Os ciclos de sono se repetem, e a proporção de sono REM tende a aumentar ao longo da noite. Como os relatos de sonhos são mais frequentes após despertares durante o REM, os sonhos próximos ao período da manhã podem ter maior probabilidade de serem lembrados.

Mas existe uma segunda questão: acordar várias vezes pode criar várias oportunidades para que diferentes experiências sejam recuperadas.

Imagine que uma pessoa durma durante várias horas sem despertar. Ela pode ter sonhos em diferentes momentos, mas, ao levantar pela manhã, talvez apenas uma pequena parte dessas experiências esteja acessível à memória.

Agora imagine outra pessoa que tenha vários despertares espontâneos. Cada despertar interrompe o sono e pode deixar uma experiência onírica mais próxima da consciência desperta.

Isso não prova que os despertares sejam a causa de uma pessoa lembrar de muitos sonhos. Mas fornece uma explicação plausível para parte dessa associação.

Algumas pessoas simplesmente lembram mais

A frequência de lembrança de sonhos varia bastante entre indivíduos.

Um estudo recente acompanhou 217 adultos saudáveis e encontrou associações entre a lembrança matinal de sonhos e diferentes características, incluindo atitudes em relação aos sonhos, tendência a divagar mentalmente e padrões de sono. A probabilidade de lembrar também esteve relacionada à idade e à vulnerabilidade à interferência de outras informações.

Outras pesquisas encontraram diferenças entre pessoas que relatam sonhos com muita frequência e aquelas que raramente se lembram deles. Estudos de neuroimagem, por exemplo, observaram diferenças na atividade e conectividade de determinadas regiões cerebrais entre indivíduos com alta e baixa frequência de lembrança de sonhos.

Isso não significa que exista um “cérebro que sonha mais” e outro que “sonha menos”.

A lembrança depende de uma cadeia de processos: primeiro existe uma experiência durante o sono; depois, alguma forma de registro dessa experiência; finalmente, é necessário conseguir recuperá-la depois do despertar.

Uma revisão de 2023 propôs justamente essa distinção entre produção da experiência, codificação e recuperação da memória do sonho.

Por isso, duas pessoas podem ter experiências oníricas semelhantes e ainda assim acordar com lembranças completamente diferentes.

O que ainda não sabemos

Apesar de décadas de pesquisa, ainda não existe uma explicação única para a grande diferença na frequência de lembrança de sonhos entre as pessoas.

Sabemos que o estágio do sono, os despertares, características individuais e o próprio processo de memória estão envolvidos. Porém, não é possível olhar para uma pessoa que se lembra de dez sonhos e concluir automaticamente que ela sonhou dez vezes mais do que alguém que não se lembra de nenhum.

Essa distinção é importante.

Também não podemos afirmar que acordar várias vezes necessariamente causa uma maior frequência de lembrança. A relação pode ser bidirecional ou envolver outros fatores.

Além disso, estudos sobre sonhos enfrentam uma dificuldade metodológica incomum: os pesquisadores não conseguem observar diretamente a experiência subjetiva enquanto ela acontece. Muitas vezes precisam acordar a pessoa e perguntar o que ela estava vivenciando.

O próprio método utilizado para despertar alguém pode alterar a probabilidade de um relato ser lembrado. A revisão de 2025 encontrou, por exemplo, diferenças na lembrança dependendo da forma como o participante era acordado.

Isso significa que ainda existe uma distância entre ter uma experiência durante o sono e conseguir transformá-la em um relato consciente depois de acordar.

Novas perspectivas

Talvez a melhor maneira de compreender uma noite cheia de sonhos lembrados seja abandonar a ideia de que lembrar de muitos sonhos significa necessariamente sonhar demais.

Pode ser, em parte, uma questão de acesso à memória.

Uma pessoa pode passar boa parte da noite tendo experiências mentais das quais não se lembrará posteriormente. Outra pode ter características que tornam essas experiências mais acessíveis durante a transição entre sono e vigília.

No caso de alguém que desperta repetidamente, existe ainda uma possibilidade particularmente interessante: os próprios despertares podem oferecer mais oportunidades para que diferentes experiências sejam recuperadas antes que desapareçam.

Isso cria uma situação curiosa. Uma noite fragmentada pode produzir a impressão subjetiva de uma noite extremamente cheia de sonhos.

Mas essa interpretação precisa ser feita com cuidado. Lembrar de muitos sonhos não significa, por si só, que exista algum problema, nem permite concluir que a pessoa tenha uma alteração específica do sono.

Uma noite fragmentada pode produzir a impressão subjetiva de uma noite extremamente cheia de sonhos.

Mas essa interpretação precisa ser feita com cuidado. Lembrar de muitos sonhos não significa, por si só, que exista algum problema, nem permite concluir que a pessoa tenha uma alteração específica do sono.

Por outro lado, quando a lembrança de muitos sonhos aparece junto de despertares frequentes, sono pouco restaurador ou cansaço durante o dia, o aspecto mais relevante talvez não seja a quantidade de sonhos lembrados. O fenômeno que merece atenção pode ser a própria fragmentação do sono.

Mas existe outra possibilidade ainda mais curiosa: e quando não apenas lembramos de um sonho, mas percebemos que determinada experiência parece voltar repetidamente?

Leia também: [Por que tenho sonhos repetidos?]

Conclusão

Lembrar de muitos sonhos durante a noite não significa necessariamente sonhar mais do que as outras pessoas.

A ciência indica que o sonho ocorre em diferentes estágios do sono e que a capacidade de lembrá-lo depende de vários fatores. Entre eles estão o estágio do sono, os despertares, características individuais e os processos envolvidos na formação e recuperação das memórias.

Por isso, uma pessoa que acorda várias vezes pode ter mais oportunidades de perceber e guardar temporariamente aquilo que estava vivenciando durante o sono. Isso pode ajudar a explicar por que algumas noites parecem conter uma sucessão interminável de sonhos.

Ainda assim, não existe uma explicação única capaz de dizer por que uma pessoa se lembra de tantos sonhos e outra quase nenhum.

Talvez a pergunta mais interessante não seja apenas “por que sonho tanto?”, mas “o que faz algumas experiências do sono conseguirem atravessar a fronteira entre dormir e acordar?”

Essa mudança de perspectiva revela algo importante sobre a própria memória: lembrar não é simplesmente ter vivido uma experiência. É conseguir preservá-la e recuperá-la depois.

E, no caso dos sonhos, essa passagem entre o sono e a consciência ainda guarda muitas perguntas que a ciência está tentando responder.

Referências

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