Por que parece que todo mundo sabe o que quer da vida, menos eu?

Talvez você já tenha olhado para as pessoas ao seu redor e tido a impressão de que existe algum tipo de mapa que todo mundo recebeu — menos você.

Alguém quer ser médico. Outro sempre sonhou em viajar pelo mundo. Uma pessoa sabe exatamente qual carreira deseja seguir. Outra parece ter encontrado uma paixão e está disposta a passar anos construindo aquilo.

E você?

Você tenta imaginar o próprio futuro, mas não encontra nada que realmente queira perseguir.

Pode até começar alguma coisa. Um curso, um projeto, um trabalho, um hobby. Por algum tempo, parece que talvez seja aquilo. Então surge outra possibilidade, outro interesse, outra ideia.

E você muda de direção novamente.

Não necessariamente porque não consegue fazer escolhas, mas porque parece faltar alguma coisa por trás delas.

Um desejo.

Um sonho que faça você pensar: “É isso que eu quero. É para isso que estou caminhando.”

Sem essa sensação, o futuro pode parecer uma estrada com várias bifurcações, mas nenhuma placa indicando para onde você realmente deseja ir.

Enquanto isso, parece que todo mundo está avançando.

E talvez a parte mais difícil não seja exatamente não saber o que fazer.

Seja sentir que não existe nada que você queira o suficiente para transformar em objetivo.

Minha experiência

Às vezes, sinto que cada dia é apenas mais um dia comum, quase igual ao anterior.

A rotina se repete, os dias passam e, mesmo percebendo o tempo avançar, tenho a sensação de continuar parado no mesmo lugar, sem saber exatamente para qual direção seguir.

Enquanto isso, olho ao meu redor e vejo amigos seguindo em frente. Alguns correndo atrás dos próprios sonhos, outros construindo suas carreiras, formando famílias, fazendo planos e dando passos em direção ao futuro que desejam.

E eu me pergunto onde deveria estar.

Não é necessariamente inveja. Fico feliz por eles e admiro vê-los conquistando aquilo que desejam.

Mas, ao comparar suas trajetórias com a minha, às vezes surge a sensação de que estou ficando para trás.

E talvez o mais difícil seja perceber que nem sempre isso acontece por falta de capacidade.

Às vezes, parece faltar justamente aquilo que faria todo o esforço valer a pena: um objetivo pelo qual correr.

É difícil construir um caminho quando você não sabe para onde quer ir.

Então continuo experimentando coisas, mudando de direção e tentando descobrir o que realmente quero, enquanto o tempo parece continuar avançando independentemente da minha indecisão.

Talvez seja essa a parte que mais me incomoda: não saber se estou apenas em uma fase de descoberta ou se estou simplesmente parado, esperando encontrar um sonho que talvez nem exista.

E, enquanto procuro uma direção, não consigo deixar de pensar:

E se todo mundo estiver construindo o próprio futuro enquanto eu ainda estou tentando descobrir qual futuro quero construir?

O que a ciência sabe

todo

Antes de tudo, existe uma diferença importante entre não saber qual caminho escolher e não sentir que existe um caminho que você deseja perseguir.

A primeira situação envolve uma escolha entre possibilidades. A segunda envolve algo mais fundamental: a própria formação de objetivos.

A psicologia da motivação estudou bastante essa questão. Uma das teorias mais influentes nesse campo é a Teoria da Autodeterminação, que propõe que a motivação humana está relacionada, entre outros fatores, à satisfação de três necessidades psicológicas básicas: autonomia, competência e relacionamento.

Autonomia, nesse contexto, não significa simplesmente “fazer tudo sozinho”. Refere-se à experiência de perceber que suas ações são coerentes com aquilo que você valoriza e que existe algum grau de escolha pessoal naquilo que está fazendo.

Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem perseguir exatamente o mesmo objetivo e vivenciá-lo de maneiras completamente diferentes.

Imagine duas pessoas estudando para uma determinada profissão.

Uma escolheu aquele caminho porque realmente se identifica com ele e sente que está construindo algo que considera importante.

A outra está seguindo o mesmo caminho principalmente porque acredita que é o que sua família espera, porque teme decepcionar alguém ou porque considera que aquela é a única opção aceitável.

Externamente, as duas podem parecer igualmente determinadas.

Internamente, porém, a motivação pode ser bastante diferente.

Pesquisas baseadas na Teoria da Autodeterminação encontram associações entre formas mais autônomas de motivação e diferentes indicadores de bem-estar e persistência. Em estudantes, por exemplo, a motivação intrínseca e a identificação pessoal com aquilo que se faz estiveram associadas a melhores resultados de bem-estar e adaptação, enquanto a amotivação esteve relacionada a resultados menos favoráveis.

Isso não significa que precisamos descobrir uma “paixão verdadeira” antes de começar qualquer coisa.

Na realidade, a própria ideia de que cada pessoa possui um grande sonho escondido esperando para ser encontrado é mais uma narrativa cultural do que uma conclusão científica.

Objetivos podem surgir, mudar e ser construídos ao longo da vida.

E talvez essa seja uma das partes mais importantes para quem sente que está “pulando de galho em galho”.

Mudar de objetivo não significa necessariamente fracassar em encontrar o objetivo certo.

Interesses podem mudar conforme adquirimos novas experiências, conhecemos pessoas diferentes, desenvolvemos habilidades e descobrimos aspectos de nós mesmos que antes não conhecíamos.

Além disso, aquilo que valorizamos pode mudar.

Uma pessoa pode passar anos acreditando que deseja determinada profissão e, depois de experimentar aquela realidade, perceber que o que imaginava não correspondia ao que realmente queria.

Essa descoberta não torna os anos anteriores necessariamente inúteis.

Ela fornece informação.

Existe ainda outra distinção importante: ter um objetivo não é a mesma coisa que ter propósito na vida.

Um objetivo pode ser relativamente pequeno e concreto: aprender uma habilidade, concluir um curso, escrever um livro ou economizar dinheiro.

Propósito é um conceito mais amplo e pode envolver a sensação de que a própria vida possui direção, significado ou algo que vale a pena perseguir.

Pesquisas sobre propósito e significado na vida encontram associações entre essas experiências e diferentes indicadores de saúde e bem-estar. Uma revisão sistemática e meta-análise, por exemplo, encontrou uma associação entre significado na vida e saúde física, embora isso não permita concluir que simplesmente “encontrar um propósito” cause diretamente melhorias na saúde.

Essa diferença é importante.

A ciência encontra associações entre propósito, significado e determinados resultados. Isso não significa que exista uma fórmula simples segundo a qual qualquer pessoa que descubra um grande sonho automaticamente se tornará mais feliz, saudável ou realizada.

Também não significa que uma vida sem um grande objetivo seja necessariamente uma vida sem significado.

Outro aspecto interessante aparece quando observamos o tipo de objetivo que buscamos.

Pesquisas distinguem, por exemplo, aspirações mais intrínsecas — relacionadas a crescimento pessoal, relacionamentos, contribuição para a comunidade e saúde — de aspirações mais extrínsecas, como riqueza, fama e imagem.

Uma grande meta-análise que reuniu 105 estudos e mais de 70 mil participantes encontrou associações entre aspirações intrínsecas e maior bem-estar. Os resultados relacionados às aspirações extrínsecas foram mais complexos e dependeram da maneira como essas metas eram avaliadas.

Isso sugere algo interessante: talvez a pergunta não seja apenas “o que eu quero conquistar?”, mas também “por que eu quero isso?”

Uma pessoa pode querer dinheiro porque acredita que isso representa segurança e liberdade.

Outra pode querer dinheiro principalmente porque acredita que finalmente será valorizada pelos outros.

O objetivo externo é parecido.

O significado psicológico pode ser completamente diferente.

E isso nos leva de volta à comparação.

Quando olhamos para alguém que parece extremamente determinado, enxergamos apenas o resultado final: a pessoa estudando, trabalhando, treinando ou construindo alguma coisa.

Não vemos necessariamente os anos de dúvida, as escolhas abandonadas, as tentativas que não deram certo ou as mudanças de direção.

A comparação pode produzir a impressão de que os outros possuem uma certeza que nós não temos.

Mas uma fotografia do presente não revela o processo que levou alguém até ali.

O que ainda não sabemos

A ciência consegue estudar motivação, objetivos, propósito, valores e bem-estar. Mas ela não possui um método capaz de olhar para uma pessoa e determinar qual é o sonho que ela deveria perseguir.

Não existe um teste científico que possa revelar a profissão perfeita, o objetivo definitivo ou o propósito único de uma vida.

Também não sabemos exatamente por que algumas pessoas desenvolvem objetivos muito claros enquanto outras passam longos períodos explorando possibilidades.

A formação de objetivos provavelmente envolve uma combinação de características individuais, experiências, relações sociais, contexto cultural, oportunidades e acontecimentos ao longo da vida.

Além disso, não devemos transformar a falta de um grande sonho automaticamente em um problema psicológico.

Uma pessoa pode estar simplesmente em uma fase de exploração.

Outra pode estar satisfeita com uma vida que não possui um objetivo grandioso.

E outra pode realmente estar sofrendo com uma sensação persistente de vazio, falta de motivação ou perda de interesse.

Essas experiências podem parecer semelhantes por fora, mas são diferentes.

Por isso, seria simplista afirmar que qualquer pessoa que muda frequentemente de objetivo está “perdida” ou que precisa imediatamente encontrar uma paixão.

Novas perspectivas

Talvez o problema esteja parcialmente na maneira como aprendemos a imaginar o futuro.

Somos frequentemente incentivados a descobrir “o que queremos ser”.

Como se existisse uma resposta escondida dentro de nós e nossa tarefa fosse encontrá-la.

Mas talvez algumas pessoas não encontrem um sonho pronto.

Talvez precisem construir uma direção através da experiência.

Em vez de esperar encontrar algo que desperte uma certeza absoluta, pode ser possível começar observando coisas menores:

O que desperta minha curiosidade?

Que atividades fazem meu tempo passar de maneira diferente?

Que tipo de problema eu gostaria de aprender a resolver?

O que considero importante, mesmo quando ninguém está me observando?

Que tipo de pessoa quero me tornar?

Essas perguntas são diferentes de simplesmente perguntar:

“Qual é o meu grande sonho?”

Porque talvez você não tenha um.

E tudo bem.

Um caminho também pode ser construído por pequenas decisões.

Você experimenta algo. Descobre que gosta. Aprende uma habilidade. Percebe que determinada atividade não combina com você. Conhece alguém. Encontra um novo interesse. Muda novamente.

Cada experiência pode reduzir algumas possibilidades e tornar outras mais visíveis.

Nesse sentido, explorar não é necessariamente estar perdido.

Às vezes, explorar é justamente uma maneira de descobrir o que vale a pena perseguir.

Também pode ser útil abandonar a ideia de que um objetivo precisa ser grandioso para ser legítimo.

Você não precisa necessariamente encontrar uma missão capaz de justificar toda a sua existência.

Talvez, neste momento, exista apenas algo que você gostaria de aprender.

Ou uma pessoa que gostaria de se tornar.

Ou uma experiência que gostaria de viver.

Ou simplesmente uma direção que parece um pouco mais interessante do que as outras.

Isso já pode ser suficiente para começar.

O objetivo não precisa nascer completamente formado.

Ele pode ganhar forma enquanto você caminha.

Conclusão

Sentir que todo mundo sabe o que quer enquanto você continua mudando de direção pode ser uma experiência profundamente desconfortável.

Principalmente quando parece faltar não apenas uma resposta, mas o próprio desejo de perseguir alguma coisa.

A ciência mostra que motivação, objetivos, autonomia, valores e propósito estão relacionados de maneiras complexas ao comportamento e ao bem-estar. Mas ela não estabelece que toda pessoa precisa encontrar um grande sonho para viver uma vida significativa.

Talvez algumas direções sejam descobertas.

Outras sejam construídas.

E algumas sejam abandonadas quando percebemos que não eram realmente nossas.

Por isso, talvez a pergunta não precise ser:

“Qual é o sonho que vai finalmente me dizer o que fazer da minha vida?”

Pode ser algo mais simples:

“O que vale a pena explorar agora?”

Talvez você ainda não tenha encontrado algo que queira perseguir por dez, vinte ou trinta anos.

Mas isso não significa que esteja parado.

Às vezes, antes de encontrar uma direção, precisamos simplesmente começar a caminhar.

E talvez descobrir para onde queremos ir seja uma parte da própria jornada.

A ciência não elimina a complexidade da mente humana. Ela nos ajuda a compreendê-la.

Referências científicas

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