Feche os olhos e imagine uma maçã.
Não precisa fazer esforço. Apenas tente visualizar uma maçã vermelha, com a luz refletindo sobre a casca, talvez com uma pequena folha presa ao cabo.
Conseguiu?
Talvez você tenha visto a maçã quase como uma fotografia. Talvez tenha percebido apenas uma imagem vaga, difícil de definir. Ou talvez tenha acontecido algo completamente diferente:
nada.
Você sabe perfeitamente o que é uma maçã. Sabe que ela é redonda, que pode ser vermelha ou verde, que possui um cabo e uma determinada textura. Consegue falar sobre ela e reconhecê-la quando a vê.
Mas, quando tenta colocá-la dentro da própria mente, não aparece imagem nenhuma.
E isso pode ser uma descoberta bastante estranha.
Durante muito tempo, você pode ter imaginado que “imaginar” era apenas uma maneira de falar. Até perceber que algumas pessoas realmente parecem enxergar alguma coisa na mente quando fecham os olhos.
Então surge uma pergunta ainda mais curiosa:
Se eu sei como uma maçã é, por que não consigo vê-la dentro da minha própria cabeça?
Minha experiência
Sempre gostei de brincar na rua, principalmente de praticar esportes. Mas havia uma atividade na escola que me deixava confuso.
Quando minha professora pedia para fecharmos os olhos e imaginarmos uma árvore para depois desenhá-la, eu realmente tentava.
Fechava os olhos com toda a força e concentração que tinha, esperando que alguma imagem aparecesse na minha cabeça.
Mas não vinha nada.
Eu sabia perfeitamente como era uma árvore. Sabia que tinha tronco, galhos, folhas e conseguia desenhá-la. O problema era que, quando fechava os olhos e tentava “vê-la” na minha mente, simplesmente não aparecia imagem alguma.
Então perguntei a alguns amigos se aquilo era normal.
A resposta não ajudou muito. Acabei sendo chamado de estranho.
E aquela sensação me acompanhou durante boa parte da vida. Por muito tempo, parecia que havia alguma coisa diferente em mim que eu simplesmente não conseguia explicar.
Hoje, porém, entendo que não conseguir imaginar visualmente uma árvore não significa não saber como ela é.
Eu não preciso enxergá-la dentro da minha cabeça para saber que uma árvore tem tronco, galhos e folhas.
Talvez minha mente simplesmente tenha encontrado outra maneira de representá-la.
O que a ciência sabe

A capacidade de produzir uma representação visual de algo que não está diante dos nossos olhos é conhecida como imagética mental visual.
Ela não é exatamente igual à visão. Quando imaginamos uma maçã, não estamos recebendo luz dos olhos e processando uma imagem externa. Estamos produzindo internamente uma representação que possui algumas características semelhantes à percepção visual.
Pesquisas em neurociência mostram que a imagética visual envolve uma rede distribuída de regiões cerebrais, incluindo áreas frontais, parietais, temporais e regiões relacionadas ao processamento visual. A experiência de imaginar, portanto, não parece depender de um único “lugar da imaginação” no cérebro.
E existe uma grande variação nessa capacidade.
Algumas pessoas relatam imagens extremamente vívidas. Conseguem imaginar uma cena com cores, formas, profundidade e detalhes que parecem quase perceptivos. No outro extremo, existem pessoas que relatam pouca ou nenhuma experiência visual voluntária.
É nesse extremo que aparece o termo afantasia.
A afantasia é geralmente descrita como uma capacidade muito reduzida ou ausente de produzir voluntariamente imagens mentais. Mas isso não significa simplesmente “não ter imaginação”. O fenômeno é especificamente relacionado à experiência de formar imagens mentais e pode variar bastante entre indivíduos.
E aqui existe uma das partes mais interessantes da questão:
não conseguir visualizar alguma coisa não significa necessariamente não conseguir pensar sobre ela.
Você pode saber que uma maçã é redonda, saber que ela costuma ter uma determinada aparência, lembrar que a maçã que comeu ontem era vermelha e até descrever seus detalhes sem experimentar uma imagem visual correspondente.
Em outras palavras, conhecimento e imagem mental não são a mesma coisa.
Isso ajuda a explicar por que uma pessoa pode dizer “eu não consigo ver uma maçã na minha cabeça” e, ao mesmo tempo, demonstrar perfeitamente que sabe como uma maçã é.
A imagética é apenas uma das formas pelas quais informações podem ser representadas mentalmente.
Podemos pensar em palavras, conceitos, relações espaciais, sensações, sons e outras formas de representação. A ausência de uma imagem visual consciente não implica automaticamente ausência das demais.
Isso também explica por que algumas pessoas com afantasia podem ficar surpresas quando descobrem que outras pessoas realmente experimentam imagens mentais de maneira visual.
Para quem sempre pensou predominantemente por palavras ou conceitos, a ideia de “ver uma maçã na mente” pode parecer quase metafórica.
Para outra pessoa, pode ser uma experiência bastante concreta.
A mente realmente funciona de maneiras diferentes
Um estudo que investigou mais de 2.000 pessoas com diferentes níveis de imagética encontrou associações entre afantasia e determinadas características cognitivas, incluindo relatos de dificuldades maiores com memória autobiográfica e reconhecimento facial. Mas os próprios pesquisadores tratam a afantasia como uma característica complexa, e essas associações não significam que todas as pessoas sem imagens mentais apresentem as mesmas dificuldades.
Outro estudo, envolvendo pessoas com afantasia congênita, encontrou diferenças na quantidade de detalhes de objetos lembrados em desenhos feitos de memória. Ao mesmo tempo, os participantes apresentaram desempenho espacial preservado, mostrando que diferentes componentes da representação visual podem funcionar de maneiras distintas.
E existe uma descoberta ainda mais interessante.
Em um estudo publicado em 2024, pessoas com afantasia apresentaram desempenho objetivo preservado em diferentes tarefas de memória de objetos, apesar de relatarem uma experiência subjetiva de imagem mental muito mais fraca.
Isso sugere que não sentir uma imagem mental não significa necessariamente não possuir ou utilizar informações visuais de alguma forma.
Essa distinção é importante porque nossa experiência consciente e nosso desempenho em uma tarefa não são necessariamente a mesma coisa.
Podemos saber mais do que sentimos que sabemos.
O que ainda não sabemos

Apesar do crescimento das pesquisas sobre afantasia, ainda existem muitas perguntas abertas.
Uma delas é justamente: o que significa exatamente “não visualizar”?
A pesquisa depende, em grande parte, de relatos subjetivos. Afinal, a experiência de uma imagem mental acontece dentro da própria consciência e não pode ser observada diretamente por outra pessoa.
Isso torna sua investigação particularmente difícil.
Um questionário pode perguntar quão vívida é a imagem de uma maçã. Mas duas pessoas podem utilizar a mesma nota para descrever experiências internas diferentes.
Uma delas pode enxergar uma imagem vaga.
Outra pode não enxergar absolutamente nada, mas sentir que possui alguma representação espacial do objeto.
Por isso, pesquisadores continuam discutindo como medir a imagética mental de maneira mais objetiva.
Essa questão também aparece nas estimativas de quantas pessoas apresentam afantasia.
Um estudo encontrou uma prevalência de aproximadamente 3,9% usando determinados critérios e amostras.
Outro estudo, realizado com mais de 5.000 adultos nos Estados Unidos, encontrou 8,9% de pessoas que se identificavam como tendo afantasia, mas apenas 1,5% apresentavam um perfil de baixa imagética de acordo com as escalas utilizadas.
Uma estimativa internacional mais recente encontrou cerca de 0,9% de afantasia quando diferentes estudos foram combinados e analisados utilizando determinados critérios.
Por que números tão diferentes?
Porque ainda existe debate sobre como definir e medir o fenômeno.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 destaca justamente essas dificuldades e aponta que ainda são necessárias pesquisas para aperfeiçoar a definição, a mensuração e as teorias sobre a afantasia.
Até mesmo estudos neurocientíficos recentes ainda estão tentando entender exatamente o que acontece.
Uma pesquisa de 2025 utilizou ressonância magnética funcional de altíssimo campo para investigar os circuitos envolvidos na imagética visual em pessoas com e sem afantasia. Os resultados ajudam a investigar como informações visuais podem ser processadas internamente quando a pessoa não relata uma experiência consciente de imagem, mas a interpretação desses mecanismos ainda está em desenvolvimento.
Portanto, ainda não sabemos exatamente se todas as pessoas que relatam “não ver nada” possuem o mesmo tipo de funcionamento mental.
E isso é importante.
Afantasia provavelmente não é uma experiência única e uniforme.
Novas perspectivas
Talvez a parte mais curiosa dessa descoberta seja perceber que você pode ter passado anos acreditando que todas as pessoas pensavam como você.
Afinal, quando alguém diz:
“Imagine uma praia.”
Você pode entender perfeitamente o conceito.
Sabe o que é uma praia.
Consegue pensar no mar, na areia, no céu e nas ondas.
Mas isso não significa necessariamente que você precise ver alguma dessas coisas.
Talvez sua mente trabalhe principalmente com conceitos e palavras.
Talvez você pense nas características de um objeto sem produzir uma imagem dele.
Talvez consiga representar relações espaciais sem enxergar uma cena.
Ou talvez exista alguma forma de imagem tão fraca que você nunca tenha considerado aquilo uma imagem.
Essa descoberta pode ser especialmente interessante porque revela uma coisa que normalmente esquecemos:
não temos acesso direto à experiência mental das outras pessoas.
Quando alguém diz “eu consigo imaginar uma maçã”, não sabemos exatamente o que essa pessoa experimenta.
Ela pode estar vendo algo semelhante a uma fotografia.
Pode ser uma imagem extremamente vaga.
Pode ser apenas uma impressão visual.
E quando outra pessoa diz “não vejo nada”, isso também não significa necessariamente que esteja pensando sem qualquer representação.
Existem diferentes maneiras de chegar a um mesmo resultado mental.
Isso também muda uma interpretação comum sobre criatividade.
É fácil imaginar que, se uma pessoa não consegue visualizar mentalmente, ela necessariamente terá dificuldade para criar.
Mas as evidências não permitem uma conclusão tão simples.
A imagética visual pode participar da criatividade e da construção de combinações mentais, mas criatividade não depende exclusivamente de imagens. Mas se a criatividade não depende necessariamente de visualizar imagens, por que algumas situações fazem justamente as ideias parecerem desaparecer? [Por que é tão difícil ter ideias quando precisamos ser criativos?]
Aliás, estudos sobre pessoas com níveis extremos de imagética encontraram associações entre diferentes estilos de imagética e diferentes perfis ocupacionais, mas isso não significa que uma determinada profissão seja causada pela capacidade de visualizar ou que pessoas com afantasia não possam ser criativas.
Talvez a melhor maneira de pensar sobre isso seja:
a imaginação não precisa necessariamente parecer uma imagem.
Para algumas pessoas, imaginar pode significar ver.
Para outras, pode significar descrever.
Para outras, relacionar.
E para algumas, pode ser uma mistura de tudo isso.
O que muda não é necessariamente a capacidade de imaginar, mas a forma como a imaginação aparece na experiência consciente.
Conclusão

Não conseguir visualizar uma maçã dentro da mente pode parecer, à primeira vista, como se alguma coisa estivesse faltando.
Mas a ciência apresenta uma imagem muito mais interessante.
A capacidade de produzir imagens mentais varia significativamente entre as pessoas. Algumas possuem imagens extremamente vívidas; outras relatam imagens muito fracas; e algumas praticamente não experimentam imagens visuais voluntárias.
Essa última experiência pode ser descrita como afantasia, embora ainda exista debate sobre sua definição e sobre a melhor maneira de medi-la.
E talvez a descoberta mais importante seja que não enxergar mentalmente não significa necessariamente não conseguir pensar, lembrar, compreender ou imaginar.
A mente possui mais de uma maneira de representar o mundo.
Talvez, então, quando alguém pedir para você imaginar uma maçã, você não precise se perguntar:
“Por que eu não consigo vê-la?”
Talvez uma pergunta mais interessante seja:
“Se eu não vejo uma imagem, como exatamente minha mente sabe o que é uma maçã?”
Essa pergunta nos leva para um território ainda mais fascinante: o fato de que nossa experiência consciente é apenas uma das maneiras pelas quais o cérebro constrói e utiliza representações do mundo.
E talvez seja justamente isso que torna a mente tão interessante.
A ciência não elimina a complexidade da mente humana. Ela nos ajuda a compreendê-la.
Fontes científicas principais
- Jin, F., Hsu, S.-M., & Li, Y. (2024). A Systematic Review of Aphantasia: Concept, Measurement, Neural Basis, and Theory Development. Vision.
- Keogh, R., Pearson, J., & Zeman, A. (2021). Aphantasia: The science of visual imagery extremes.
- Zeman, A. et al. (2020). Phantasia—The psychological significance of lifelong visual imagery vividness extremes.
- Dawes, A. J. et al. (2020). Quantifying aphantasia through drawing: Those without visual imagery show deficits in object but not spatial memory.
- Liu, J. et al. (2025). Visual mental imagery in typical imagers and in aphantasia: A millimeter-scale 7-T fMRI study.